A História vista de baixo: terra, trabalho e conflito no século 19

Por Darlan Reis Jr.


Este texto originalmente foi publicado no livro Novas Histórias do Cariri, organizado por Amanda Teixeira da Silva. Referência: SILVA, Amanda Teixeira (organizadora). Novas Histórias do Cariri. Curitiba: CRV, 2019.


História social do trabalho e da propriedade

Este capítulo é uma síntese de algumas questões da tese defendida no ano de 2014, intitulada “Senhores e trabalhadores no Cariri cearense: terra, trabalho e conflitos na segunda metade do século XIX”, junto ao programa de Pós-Graduação em História Social da Universidade Federal do Ceará. Nela foram discutidas as relações entre senhores e trabalhadores que viveram na região do Cariri, localizada no extremo sul da Província do Ceará, na segunda metade do século XIX. No trabalho humano está inserida a relação com as demais forças da natureza, o intercâmbio entre elas, dentro do processo histórico (MARX, 1971, p. 202). As relações de trabalho são ativas, têm uma história, estão permeadas por continuidades e descontinuidades e se inserem em um quadro maior, o do meio histórico, um espaço social revelador das contradições, divisões e desarmonias, mas também das solidariedades e da convivência cooperativa (CARDOSO, 1979, p.18).


Procuro analisar as questões que envolvem o mundo do trabalho em suas várias dimensões, desde as relações produtivas, até os valores, tradições, experiências, conflitos e solidariedades que os seres humanos estabeleceram na região do Cariri. Desse modo, o mais apropriado é referir-me aos mundos do trabalho. Como afirma Sidney Chalhoub, cada história recuperada através dos documentos é umaencruzilhada de muitas lutas: na estigmatização dos pobres, nas estratégias de controle social dos agentes policiais e judiciários, na reação dos trabalhadores e suas experiências de resistência e afirmação (CHALHOUB, 2001, p.41). Nesses mundos, nem tudo é conflito ou exploração. Havia espaço para o trabalho coletivo, para a solidariedade, para a festa, para as relações afetivas e de parentesco, para momentos de confraternização.Assim, o trabalho não foi apenas uma estratégia de controle social, mas um instrumento de acumulação de riquezas. Assumia significados diferentes para os diversos segmentos sociais. Significava opressão, no contexto da escravidão ou em outras formas de compulsoriedade, sendo, nestes casos como em outros, uma forma de exploração social de homens e mulheres, exploração esta que, no Cariri, teve como uma de suas bases o controle da propriedade da terra. Mas o trabalho também era entendido como mais uma das atividades humanas, apenas mais uma, sem o sentido de opressão a que me referi, como na vida das comunidades quilombolas, no trabalho de mutirão feito pelos camponeses, em seu cotidiano pelos sítios.


Ao propor uma História Global do Trabalho, que leve em consideração a pluralidade de concepções de pesquisa e de perspectivas interpretativas diferentes, Marcel Van der Linden afirma que os estudos das relações de trabalho devem englobar trabalho livre, não livre, remunerado e não remunerado, movimentos de trabalhadores organizados e atividades informais, sendo dada igual atenção ao “outro lado”, ou seja, patrões, senhores e autoridades públicas (LINDEN, 2009, p.18-19).


Van der Linden argumenta que mesmo com a Nova História do Trabalho contextualizando as lutas dos trabalhadores e renovando a pesquisa, continuou-se a priorizar o espaço europeu e a América do Norte (no caso, os Estados Unidos e o Canadá). Sua sugestão é que os conceitos centrais da História do Trabalho, que foram principalmente baseados em experiências da região do Atlântico Norte, sejam criticamente reconsiderados. Isso inclui a ideia de trabalho e de classe trabalhadora. Em algumas línguas, o conceito de trabalho tem um significado binário, havendo uma distinção entre labor e work, como no caso da língua inglesa [1]. Em outras línguas, este significado binário não existe, não havendo uma palavra específica para labor. Sobre a classe trabalhadora, Linden considera que o termo foi usado desde o século XIX para identificar um grupo de trabalhadores “respeitáveis”, em oposição a escravos e outros trabalhadores sem liberdade. E essa abordagem não seria apropriada quando o recorte dos estudos enfocassem regiões do hemisfério sul, pois os grupos sociais que seriam as exceções em outros lugares, ali seriam a regra. Esta ampliação do sentido de trabalhadores é utilizada por mim. O conceito não deve se restringir apenas aos trabalhadores livres do século XX.


Os estudos sobre os trabalhadores não devem ficar restritos à classe operária brasileira, suas lutas e vivências. Devem ser incluídos no conceito, os trabalhadores escravizados, os trabalhadores formalmente livres, mas que estavam subordinados às formas compulsórias de trabalho distintas da escravidão, porém, distantes do trabalho assalariado formal. Também devem ser incluídos os trabalhadores das áreas rurais, agregados, moradores, os pequenos produtores, conhecidos por sitiantes, enfim, diversas modalidades de trabalho e de trabalhadores que vivenciaram as experiências nas relações de produção em temporalidades anteriores ao século XX. Além destes, os pobres excluídos do processo produtivo, o chamado lumpemproletariado, que mesmo vivendo numa sociedade que explorava o trabalho de homens livres pobres e o de escravizados, não conseguiam realizar atividades de trabalho institucionalizadas, seja por falta de oportunidade de acesso à terra, seja por condições conjunturais de determinada região, ou por decisão própria de ficar à margem dessa relação.


Sobre o trabalho em si, também deve ser levado em consideração o que não era realizado nos locais institucionalizados pelas classes dominantes. Mesmo que muitas vezes, os senhores desconsiderassem como legítimas as atividades realizadas que não eram controlados por eles, o fato é que homens e mulheres trabalharam não necessariamente subordinados a um senhor, numa relação de dependência ou de exploração. Exemplos são os pequenos produtores, posseiros que trabalhavam por conta própria, os homens livres pobres que não aceitavam ser moradores de um fazendeiro, os escravizados que fugiam e trabalhavam nos quilombos quando era possível, vaqueiros que se embrenhavam nos sertões e criavam o seu próprio rebanho, os trabalhadores urbanos que realizavam atividades artesanais ou prestavam serviços ocasionalmente. Se o trabalho é entendido como atividade socialmente necessária ao gênero humano, na prática, tem frequentemente motivações particulares, históricas. Dessa maneira, é na história vivida de trabalhadores e trabalhadoras no Cariri e nas relações sociais destes com os senhores ou com os setores sociais que pregavam sua subordinação que se deve procurar entender o trabalho realizado durante a segunda metade do século XIX. Como, por exemplo, dos trabalhadores que eram procurados para o serviço na construção de estradas de ferro:


O ENGAJAMENTO

Acha-se nesta cidade o Sr. Fernandes Eiras, incumbido pela directoria da estrada de ferro de Pernambuco para engajar jornaleiros para essa obra, promettendo vantagens, que não são para de pensarem os nossos homens de trabalho. Alem dos salarios de 640 diarios, o Sr. Eiras garante outros modos, taes como casa e comida, despesas de viagem e algum dinheiro adiantado para arranjos de familia, com o que o preço de um dia de serviço vem a ser de realmente mil reis. A tantas vantagens acresce ainda a proteção da directoria, em tudo o que possa respeitar aos interesses dos engajados, e a presença de uma pessoa boa da terra, que os acompanhará, e durante o serviço os terá debaixo de suas vistas. Corre obrigação rigorosa aos senhores proprietarios de animar o povo para aceitar partido tão vantajoso, e nós interpretamos nosso credito e amisade, para q’elles cumprão esse dever que o amor da Patria nos impos. A estrada de ferro de Pernambuco, si é um bem para todos, o é particularmente para os habitantes do Cariri, que della devem tirar lucros incalculáveis; devemos por tanto concorrer para sua factura com aquillo que estiver ao nosso alcance. Pedimos lhes pois e em particular a cada um dos nossos amigos, impenhem todos os seus esforços, a fim de que o Sr. Eiras consiga engajar o maior numero de trabalhadores, fasendo ver aos moradores de suas terras as vantagens de um tal engajamento para cada um delles, e procurando desvanecer algus terrores estupidos, com que gentes miseravelmente ignorantes procurão prevenil-os, como seja esse de captiveiro. O governo e os directores do serviço protegem os trabalhadores da estrada em tudo o que é possível, levando o seo zelo ao ponto de os tratar delicadamente em qual quer molestia que appareça; molestia disemos nós dessas que ha em toda a parte; pois nos lugares, onde já está o serviço, não existem febres, ou outra qualquer epidemia, como por malignidade se tem dito. Contamos que nenhum dos nossos amigos se negará a ajudar o Sr. Eiras em uma cousa, que é toda em beneficio do paiz, e que ensinarão nossos jornaleiros a não fugirem aos interesses, que os chamão. (O ARARIPE, 26/06/1858, p.3)


No anúncio, é feito o apelo para que os senhores convencessem os moradores de suas terras, para que aceitassem o trabalho na ferrovia. Parece que os trabalhadores não desejavam abandonar seus cultivos, suas práticas, sua rotina para engajarem-se na nova atividade. Uma das razões o próprio anunciante revelava, era a associação daquele trabalho com o cativeiro. Além do que, no Cariri da segunda metade do século XIX, predominou uma economia agrária, com atividades vinculadas ao mundo rural, não exclusivo, mas predominante, combinando o uso de diversos tipos de mão de obra, trabalhadores livres, como os jornaleiros, agregados e trabalhadores escravizados, além do trabalho nas pequenas posses, realizados pelas famílias camponesas. Para tanto, a pesquisa envolveu a análise da questão agrária, das formas de apropriação do espaço e como as mesmas condicionaram tanto a riqueza como a pobreza.

A questão agrária no Cariri cearense

Para a compreensão da questão agrária é preciso entender a dinâmica de ocupação da terra e a relação entre sua posse e seu uso pelos homens e mulheres que viveram em determinado período e que constituíram uma formação social. O problema não diz respeito apenas ao sistema de produção, suas técnicas, formas de trabalho e à descrição da tipologia da agricultura e da pecuária. Ester Boserup explica que, ao analisar-se determinado espaço agrário, deve-se considerá-lo em sua totalidade, terras cultivadas e não cultivadas, os sistemas de uso, o pousio, a técnica e as relações sociais existentes. Considera fundamental perceber a continuidade no espaço agrário entre terras consideradas mais férteis e as menos férteis, áreas de pastoreio, bosques, florestas, áreas inundadas e áreas mais secas (BOSERUP, 1965, p. 77-87). Entendo que as atividades dos camponeses no Cariri devem ser incluídas nas análises sobre a economia da região. Recorri à documentação que foi possível encontrar disponível para a consulta, pertencentes às câmaras municipais da região.


A historiografia aponta que houve no Cariri, no decorrer dos oitocentos, principalmente a partir da década de 1850, um crescimento econômico caracterizado pela modernização do espaço, melhorias nos transportes, aumento nos índices de produção, o que refletiu no crescimento das vilas e das cidades. Para efeito de demonstração, recorre-se à comparação com a primeira metade daquele século, quando a região teria tido uma atividade econômica mais modesta. Ralph Della Cava aponta a relação entre a produção regional e as questões do mercado internacional. Segundo o autor, nas primeiras décadas do século XIX, a conjuntura econômica não era favorável, pois sua produção não atendia aos interesses daquele mercado (DELLA CAVA, 2014, P.60-61).


Segundo Antonio José de Oliveira, a economia local naquele período tinha como principal atividade, a produção canavieira, com seus engenhos dominando a paisagem e estruturando a vida material dos habitantes. Além disso, havia o comércio local e as atividades artesanais - oficinas onde os artesãos produziam ferramentas ou consertavam engenhos e instrumentos para as casas de farinha, máquinas de descaroçar algodão etc.; a fabricação de roupas nos teares movidos pela força humana eram atividades com considerável peso. Por fim, Oliveira destaca as atividades da agricultura de subsistência, muitas vezes combinada com a prática da criação de animais (OLIVEIRA, 2003, p. 44). Valendo-se de fontes como os inventários post-mortem, Oliveira demonstra que ocorria o predomínio dos engenhos de rapadura, condicionando as demais atividades econômicas. Segundo ele, constituiu-se “um sistema econômico e social bem peculiar” (2003, p.33). Fazendas, sítios, pequenas posses, combinavam atividades relacionadas à cana-de-açúcar e a produção para a subsistência. Não só nos engenhos, pois havia também, pequenas indústrias caseiras. Em sua análise, destaca o fato de que a base da economia a produção dos engenhos e da indústria caseira de rapaduras sempre esteve associada à produção de um gênero alimentício importante: a farinha de mandioca, base da alimentação caririense. Estariam interligados, na maior parte dos casos analisados em sua pesquisa. A soma dessa produção, quando atingia o patamar além da própria subsistência dos produtores, era destinada às feiras do Crato, Barbalha e outras vilas. Este comércio realizado nas feiras locais teria sido um item importante dentre as atividades econômicas regionais. E a base para todas essas atividades era o emprego da mão de obra de dois tipos:


Ao lado desses proprietários, e da pequena produção de subsistência, crescia também uma população migrante. Caboclos, mulatos, mestiços que, atraídos pela “abundância” de terras e de trabalho, ocupavam as áreas que circundam os engenhos e pequenas fazendas. Nessa perspectiva, originam-se dentre várias categorias de trabalhadores, duas; escravos e livres, formando dois grupos sociais predominantes no setor da produção e da relação social de trabalho no Cariri. (OLIVEIRA, 2003, p.35)


Dessa maneira, apesar de não contar com os grandes latifúndios existentes em outras regiões do Brasil, o Cariri cearense tinha atividades econômicas comuns a outros lugares, além da utilização de trabalhadores escravizados e livres. No entanto, a lógica da argumentação para a atração de uma população migrante parece-me contraditória. Não obstante Antonio José de Oliveira argumentar que a participação da população mestiça teve importante influência na sociedade e cultura caririenses, considera que a relação entre senhores e trabalhadores não “foi tão rígida como no litoral. No interior, a sociedade de algum modo tinha maior mobilidade social” (2003, p.36). E apresenta como fator que atrairia a população originada da mestiçagem, a oferta de trabalho e de terras.


Considero que a classe senhorial não estava disposta a conceder as melhores terras disponíveis para a população migrante. E discordo que as relações sociais de produção no interior foram menos rígidas do que as existentes no litoral. Que os senhores reclamavam por mais braços para trabalhar em suas propriedades, este sim é um aspecto da realidade no século XIX. Que discriminavam a população mais pobre, eis outra afirmação que pode ser comprovada. Que pudessem estabelecer as mais variadas estratégias de obtenção de mão de obra para suas fazendas e demais propriedades, também é um fato observável na documentação.


Ao mesmo tempo, muitos despossuídos buscaram o Cariri. Como a própria Câmara Municipal do Crato relatou no ano de 1846, ao comunicar que a seca do ano anterior fizera cerca de vinte mil pessoas migrarem para a região, na esperança de obter melhores condições de vida (CÂMARA MUNICIPAL DO CRATO, 1846). Isso não significa dizer que naquele, bem como em outros episódios, os migrantes procurassem o que lhes era oferecido pelos proprietários. Foram subordinados, vivendo na condição de moradores agregados da classe senhorial, não o fizeram através de uma “atração” pelas “oportunidades”. O discurso sobre o Cariri como “oásis” em meio ao sertão ressequido e a sua condição de manancial de águas e terras férteis poderia até atrair milhares de pessoas, como diziam os senhores. Poderia levar a um fluxo migratório. Mas os trabalhadores não estavam automaticamente dispostos à subordinação. Talvez procurassem outras formas de trabalho.

Houve, no nordeste brasileiro, a formação de uma população de despossuídos durante o século XVIII, o que Guillermo Palacios definiu como período “constitutivo” ou “formativo” para as comunidades de cultivadores pobres livres. O avanço das grandes propriedades, a ação do Estado colonial na busca pelo controle daquelas comunidades, levaram em fins do século XVIII à expulsão de milhares de famílias nas terras costeiras de Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Ceará e parte do litoral maranhense. Naquele momento foi criado um tripé de instrumentos expropriatórios: a proibição de certos cultivos por parte dos pequenos produtores (como o caso do algodão); a apropriação formal por parte da Coroa, das terras de mata virgem localizadas entre o sul da então comarca de Alagoas e os arredores da vila de Fortaleza (no ano de 1799); o recrutamento militar dirigido preferencialmente contra os distritos camponeses, provocando fugas e deserções em grande número. A população reagiu, negando-se ao recrutamento e também mantendo seus plantios nas áreas proibidas. O resultado, em muitos casos, foi a luta no campo e a pauperização ainda maior de boa parte dessas comunidades (PALACIOS, 2009, p. 150). Toda uma história de resistência e luta fez parte da trajetória desse campesinato. História que atravessou a segunda metade do século XIX, e que, segundo Palacios, foi acompanhada pela ação do estado nacional que procurou através das instituições, subordinar o campesinato nordestino.


Trabalhadores subordinados, fossem livres ou escravizados, apareciam nos discursos da classe senhorial como necessários, conforme discuti no capítulo anterior. Seriam os “ideais”, os “bons”, aqueles que forneceriam a força de trabalho necessária para o enriquecimento dos senhores. O pior quadro, naquela perspectiva, seria o de assistir homens e mulheres daquela classe cuidando de suas próprias vidas, sem a subordinação, buscando seu sustento nas mais diversas ocupações, seja na atividade agrícola, no extrativismo, na pesca e na caça, ocupando terras devolutas. O preconceito e a difusão de estereótipos estavam combinados à tentativa de exercer o monopólio sobre a terra e as pessoas. Desqualificando as maneiras de viver dos trabalhadores, justificavam suas práticas de domínio. Porém, a realidade econômica era dinâmica.


Na definição deste mundo rural, levo em consideração a observação de Ângela Maria Endlich, de que o rural e o urbano não são coisas dadas, mas sim dimensões sociais produzidas no decorrer da história (2010, p.19). Do ponto de vista histórico, considero imprescindível levar em conta as permeabilidades entre os dois mundos, pois a relação entre ambos é de complementaridade e não de oposição. Como foi dito, havia um processo de urbanização incipiente em algumas áreas do Brasil, com atividades econômicas que compunham um mosaico de atividades, diferenciando-se nas relações de trabalho, de tecnologias, de produtos, de mercados e formas de propriedade (PAULA, 2012, p.182). No entanto, a predominância das atividades vinculadas ao mundo rural, particularmente ligada ao setor agrário, era uma característica do Cariri, não obstante o crescimento de seus núcleos urbanos.

Na década de setenta do século XIX, era possível encontrar anúncios de jornal no Cariri, como o transcrito a seguir, onde se ofereciam morada e terra para trabalhar aos migrantes pobres, que enfrentavam a fome e a miséria, e que, para lá se dirigiam.


AOS POBRES

retirantes que faltos de recursos, e coagidos pela fome, que assola os sertões visinhos, procurão um abrigo nas terras do Crato;

Os abaixo assignados continuão a dar gratis morada nos sitios do Rosario, Oiteiro e Miranda, permittindo mais que fação seus roçados, e adquirão os meios de subzistência, sem pagar fôro ou renda alguma até que melhorem de circunstancias. Crato, 15 de Março de 1870.

José Joaquim Tellis Marrocos

Joaquim Deus-Dedit Marrocos Tellis

Deus-Dedit Joaquim Marrocos Tellis (A VOZ DA RELIGIÃO, 20/03/1870, p. 4)



Tida como um lugar de terras férteis e com fontes d’água, a região aparecia como um lugar de salvação, em contraste com as regiões vizinhas, assoladas pela seca, segundo o próprio anúncio. E mais, num gesto de caridade católica, os anunciantes ofereciam abrigo, morada e permissão para que os homens pobres pudessem se manter. Talvez o anúncio tivesse o propósito político de fazer da caridade uma ação contínua da classe senhorial, ao tempo em que, fazia circular a notícia, para que, assim, os retirantes não transgredissem a lei e atacassem as propriedades. O fato é que o anúncio se repetiria por vários números daquele periódico. Ter o controle efetivo sobre a terra era um dos aspectos que poderia garantir a subordinação das pessoas que vivenciavam a condição de pobreza e que não tinham acesso àquele tipo de bem. No caso citado, tornar-se morador em propriedade de outra pessoa, estabelecia um modelo de relacionamento baseado na mutualidade, uma prática paternalista, que Frederico de Castro Neves designa como uma relação de reciprocidade desigual, submissão versus proteção (NEVES, 2000, p. 42). Assim, caso os retirantes descritos no anúncio aceitassem a oferta, comporiam o grande número de trabalhadores que ao lado dos escravos, formavam a mão de obra que trabalhava nos engenhos de rapadura, fazendas de gado, sítios e pequenos lotes da região.

Ao recuar uma década na pesquisa das fontes, encontrei outro tipo de posicionamento político sobre os pobres que viviam no Cariri. O argumento centrava na questão do caráter duvidoso, na indolência, na propensão à vadiagem e na falta de compromisso com o trabalho. Através de um editorial de jornal, era feita uma análise sobre os problemas que os senhores de engenho enfrentavam na questão do trabalho.


Effectivamente porem saõ elles em numero sufficiente, sinaõ superabundante ás precisões naturaes dessa cultura: naõ existe por certo falta effectiva de operarios que se empreguem n’esse serviço entre nós, como o estudo da situaçaõ indica ao espirito ainda menos reflexivo; mas os habitos de verdadeira classaria a que sem freio entregão-se esses operarios em pura perda sua e dos senhores de engenhos, que carecem do concurso d’elles, o vem a seo turno reflectir em prejuiso da comunhaõ social, cujas rendas assim decrescem, ao mesmo passo que inutilisaõ-se muitos membros seos; a constante e sempre crescente vadiaçaõ enraisada em semelhante gente, que pospõe á todos os seos empenhos, e compromettimentos um samba, em que o que menos perde-se he o tempo, sobre o qual disia um celebre escriptor – tempus meus est ager meus; - e finalmente a facilidade com que provem suas primeiras necessidades, em consequencia das condições naturaes do solo, em que fructos differentes naõ deixam que se sintaõ os estimulos da fome, sem que sejaõ logo satisfeitos, em grande parte produsem o phenomeno já alludido de escassez ou falta de braços para a laboraçaõ das cannas, phenomeno que toda via naõ tem uma causa real e dimanada fatalmente de circumstancias insanaveis pelos meios ordinarios, como ja fica ahi demonstrado pela breve exposiçaõ analytica, que havemos traçado sobre a questão em si e seus incidentes. (O ARARIPE, 02/04/1851, p.1)


Para além dos jornais, na fala das autoridades locais e provinciais, nos relatórios policiais e nos processos criminais, as tensões presentes no mundo do trabalho caririense se fazem notar, demonstrando que nem sempre a regra era a generosidade ou o paternalismo nas relações entre senhores e trabalhadores. A simples leitura desta posição política, já revela de imediato o sentimento de desprezo pelos trabalhadores. No entanto, destaco alguns trechos: “hábitos de classaria”, “prejuízo da comunhão social”, “vadiação enraizada”, “facilidade com que proveem suas primeiras necessidades”, “não sentiam os estímulos da fome” e “escassez de braços”. Gente não faltava na região, mesmo assim, os senhores não conseguiam trabalhadores em número suficiente que atendessem às suas demandas. Assim, os receios da classe senhorial se apresentavam – contingente populacional que não se submetia ao trabalho, medo da maneira de viver dos trabalhadores, preconceitos e estereótipos difundidos. A classe senhorial procurava, através de diversos mecanismos e práticas hegemônicas, definir os papéis sociais que competiriam a cada classe, conforme a visão de mundo e seus interesses (GRAMSCI, 1991). No entanto, as expectativas dos senhores muitas vezes eram frustradas pelas resistências dos trabalhadores. O editorial revela, sem dizer explicitamente, o outro lado da questão. Uma cultura de recusa dos homens livres em se submeter todas as vezes que os senhores de engenho precisavam, ao trabalho árduo nas lavouras de cana-de-açúcar. Outra maneira de viver e trabalhar, já que muitos deles não sentiam os “estímulos da fome”. E possíveis formas de solidariedade, chamadas de “hábitos de classaria”.

A História vista de baixo


O gosto do pão não revela quem plantou o trigo, e o processo examinado nada nos diz sobre as condições em que ele se realiza, se sob o látego do feitor de escravos ou sob o olhar ansioso do capitalista, ou se o executa Cincinato lavrando algumas jeiras de terra ou o selvagem ao abater um animal bravio com uma pedra. (MARX, 1971, p. 208-209)


No decorrer da segunda metade do século XIX, a região do Cariri cresceu em peso demográfico e econômico. A opulência de alguns senhores pôde ser observada na pesquisa realizada para a escrita da tese, que na brevidade deste capítulo não será apresentada, mas poderá ser consultada conforme o interesse do leitor. Ao concentrarem terras, gado, bens variados, trabalhadores escravizados, ou ao explorarem os trabalhadores livres, foi possível aos senhores aumentarem seus patrimônios. Tratou-se de uma história de pessoas em diferentes condições sociais, em que a riqueza e a pobreza estavam relacionadas, não como uma questão de sorte, mas sim como uma relação social, causadora e causa de contradições que em vários momentos provocaram conflitos. Na verdade, histórias que se entrelaçavam: a de uma região, a das classes sociais, a da natureza, a do Ceará e do Brasil, mas no fim, todas elas são histórias das pessoas.


No que diz respeito ao mundo material, aquele das necessidades humanas mais básicas - o da existência física, muitas vezes o preço cobrado foi o do aviltamento através do trabalho, quando homens e mulheres foram obrigados a realizar o que lhes era imposto. Seja na lida diária das tarefas de uma fazenda, seja nas obras que os governantes do momento decidiam fazer. Os trabalhadores surgiam nas mais diversas condições, recrutados, moradores, livres ou escravizados.

As necessidades materiais dos trabalhadores estiveram sempre à margem, nas decisões políticas da classe senhorial, quando muito, eram atendidas parcialmente, depois das lutas e resistências, ou diante de condições mais agudas de catástrofe, derivadas do aumento da crise social, como nas épocas de epidemias e calamidades. A busca daqueles homens e mulheres pela sobrevivência diária não pode ser entendia como algo estritamente material, pois fazia parte das condições que nos torna seres humanos e com elas estão inter-relacionadas: as experiências, os modos de viver, as explicações sobre as próprias vidas, as expressões culturais, os preconceitos e as diferenças existentes entre os trabalhadores e os senhores.


Minha questão central consistiu em entender como uma dessas atividades, o trabalho humano, foi um dos elementos condicionantes das relações sociais no Cariri, na segunda metade do século XIX. O trabalho não é apenas uma atividade em si, mas sim um processo, como explicou Karl Marx, sendo sempre social, estando diretamente ligado à questão da relação “homem/natureza”. Processo este que tem na história, seu atributo objetivo. Os seres humanos necessitam do intercâmbio de energia com as demais forças da natureza, e este intercâmbio tem no tempo e no espaço, a sua variabilidade. Apesar disso, o estudo não se concentrou nas relações de produção somente, mas também nas relações diversas que compunham o mundo do trabalho naquele período. O controle da terra, o paternalismo, a visão depreciativa sobre os trabalhadores, os receios da classe senhorial e a cultura de recusa dos trabalhadores.


Uma história que não é apenas do Cariri, mas que aconteceu também na região, com suas peculiaridades. Envolveu o domínio e apropriação dos recursos naturais, bem como de seres humanos; compreendeu a busca por uma identidade regional que justificasse toda a dominação que ali existiu; exigiu a construção de um discurso sobre o Cariri que acabou sendo repetido através do tempo, tornando-se quase “natural” e até motivo de orgulho para determinados setores da população, qual seja, a que representa a região como sendo o “celeiro” do sertão, com seus “verdes canaviais” e “fontes perenes de água”, onde os viajantes podem descansar, depois de percorrer os sertões áridos e quentes. O pretenso projeto civilizador da classe senhorial significou o aumento dos estereótipos sobre as classes subordinadas. Da apropriação injusta dos recursos naturais e da autoimagem de bondade e civilizada, os senhores estigmatizaram os mais pobres.

Enquanto alguns puderam desfrutar as possibilidades de uma vida de fartura material e de prestígio social, combinados ao poder político, os trabalhadores procuraram diversas formas de resistir, muitas vezes, apenas para poder sobreviver no Cariri. E resistindo, estabeleceram laços de solidariedade, amizade, amor, mesmo que esses sentimentos não surjam na documentação oficial.


As relações de pertencimento pretendidas pela classe senhorial, ao transformarem a região, pelo menos em discurso, no “oásis” do sertão cearense, não foram assimiladas, nem imediatamente, nem automaticamente, pelos trabalhadores, que construíram suas próprias relações de pertencimento. Como no caso dos ex-escravos da comunidade da Serra do Chagas, em Salitre. Ou nas experiências de solidariedade e do trabalho em forma de mutirão, nos diversos sítios caririenses. Os escravizados procuravam gerenciar suas vidas, dentro das difíceis condições que lhes foi imposta, ao constituírem famílias, ao procurarem ganhos e meios de obter as alforrias, ao fugirem, ao lutarem. Os homens livres pobres evitavam o recrutamento militar, pois sabiam que o mesmo significaria o aumento da pobreza para suas famílias. A fuga ou o apadrinhamento com um senhor, para escapar do famigerado serviço militar, foram algumas das táticas empregadas. Se os mais pobres, os escravizados ou outros grupos que foram subordinados de diferentes maneiras, não deixavam nos registros fiscais, cartoriais ou judiciais a direta expressão de suas vontades, recorri como é do ofício do historiador, ao que não estava explícito, ao que não podia ser abertamente falado ou divulgado, mas que fazia parte daquelas relações muitas vezes tensas. Os sujeitos que foram retratados eram indivíduos, com sonhos, projetos, ideias próprias. Mas que vivenciaram situações tensas e desiguais, em determinadas condições históricas.


A questão agrária esteve no centro da desigualdade social gerada na segunda metade do século XIX, na região do Cariri. As melhores terras, distribuídas em várias localidades, serviram a algumas famílias, que podiam através das atividades econômicas, aumentar o patrimônio. Assim, a condição econômica dos trabalhadores esteve diretamente ligada ao processo de enriquecimento e concentração das propriedades nas famílias tradicionais, que não coincidentemente, ocupavam os cargos existentes nas câmaras municipais e em outros órgãos do Estado. Os mecanismos de exploração econômica estiveram associados aos mecanismos de desclassificação social - a exclusão da cidadania, a escravidão, a disciplinarização e o controle dos trabalhadores. Do mesmo modo, as formas de resistência apresentadas, demonstram como os seres humanos em situações difíceis, são capazes de elaborar, propor e agir politicamente. Nos mais diferentes campos de luta e de resistência.


Procurei modestamente, ampliar a percepção acadêmica sobre a história das relações entre senhores e trabalhadores, em um dos espaços marcantes desse Brasil “profundo”, que é o Cariri cearense. Como todos os trabalhos acadêmicos, este se torna mais um ponto de partida, dentre vários, na escrita da História Social.



[1] Labor sendo atribuído a um tipo de esforço manual ou trabalho pesado e work ganhando o sentido de processo mais criativo. (LINDEN, 2009, p. 22). Sobre a variação do sentido da palavra trabalho na língua inglesa, Cf. WILLIAMS, 2007, p. 396-399.



REFERÊNCIAS

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CARDOSO, Ciro Flamarion Santana. Agricultura, Escravidão e Capitalismo. Petrópolis: Vozes, 1979.

CHALHOUB, Sidney. Trabalho, lar e botequim: o cotidiano dos trabalhadores no Rio de Janeiro da belle époque. – 2ª ed. – Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2001.

DELLA CAVA, Ralph. Milagre em Joaseiro. – tradução Maria Yedda Linhares. – 3ª ed. – São Paulo: Companhia das Letras, 2014.

ENDLICH, Ângela Maria. Perspectivas sobre o urbano e o rural. In: SPOSITO, Maria Beltrão; WHITACKER, Arthur Magon (Organizadores). Cidade e campo: relações e contradições entre urbano e rural. – 2.ed. – São Paulo: Expressão Pouplar, 2010.

GRAMSCI, Antonio. Concepção Dialética da História. 9 ed., Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1991.

LINDEN, Marcel Van der. História do trabalho: o velho, o novo e o global. Revista Mundos do Trabalho, Florianópolis, vol.1, n.1, janeiro-junho de 2009, p. 18-19. Disponível em: <http://www.periodicos.ufsc.br/index.php/mundosdotrabalho/issue/view/1130>. Acesso em 10 de junho de 2011.

MARX, Karl. O Capital – Crítica da Economia Política. Livro Primeiro – o processo de produção do capital, volume 1. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1971.

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FONTES

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O ARARIPE, Jornal O Araripe, Crato, 02 de abril de 1859, Coleção Digital, CEDOCC.

O ARARIPE, 26 de Junho de 1858. Coleção Digital, CEDOCC.

O ARARIPE, 02 de Abril de 1851. Coleção Digital, CEDOCC.

CÂMARA MUNICIPAL DO CRATO. Relatório encaminhado ao Presidente da Província do Ceará, Ignacio Corrêa de Vasconcelos, em 11 de maio de 1846, caixa 34, Arquivo Público do Estado do Ceará (APEC).


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